Um Call para olhar a depressão como um problema de todos

Num momento que diariamente ouvimos e recebemos notícias de suicídios causados por depressão, alguém precisava dar nos um call e essa pessoa foi Palloma Matusse que é escritora no Blog: ceepeeryourlife.tumblr.com  o artigo é tão denso e forte que foi muito visto e revisto por várias pessoas no Twitter e lhe convido a ver abaixo.

Via: Palloma Matusse

Fazem hoje 2 meses desde que os meus colegas de turma começaram a fazer da minha vida um inferno por causa da minha condição física.

Olá, eu sou a Marta e nasci com a Hipercifose. O que é? É uma condição física que faz com que os ossos da minha coluna cresçam “tortos” e desenvolvam uma espécie de corcunda.. pois é, uma aberração.

Em 17 anos de vida, já andei em 10 colégios e mudei-me para o presente há 2 meses.. sim, não precisei de ficar lá mais que 2 horas de tempo para que o bullying começasse.

A verdade é que já devia estar habituada, sempre que vou a rua a história se repete… Pessoas se afastam, olham feio, chamam-me nomes, algumas vão longe e tentam me levar a igreja porque aparentemente eu sou obra do capeta.

Nunca tive amigos, além da minha mãe que sempre esteve ali para mim.. a minha mãe é minha heroína, ela tem outros filhos, e somos uma família humilde.. mas nunca me faltou nada; A minha guerreira sempre lutou para que eu pudesse andar nos melhores hospitais e especialistas.. mas eu sinto que ela está cansada, sinto que ela sofre muito, sinto que sou um carrasco na sua vida. No outro dia, ouvi a minha tia perguntar por quê a minha mãe não me deu para adoção, preferi não ouvir a resposta…

A minha presença nunca foi bem-vinda em lugar algum, os meus próprios irmãos fazem pouco de mim, o mais velho – Rui, bate-me porque diz que é tratado de forma diferente por ser meu irmão; no início eu chorava, mas agora deixo apenas que a dor tome forma de palavras, e deixo-as rolar pelo meu diário. É a maneira que encontrei de aliviar a dor que sinto diariamente, ou.. esconder? Não sei.

Bem, vou continuar a falar do episódio de hoje.. e se calhar seja a última vez que escrevo algo aqui..

Sempre fui uma estudante com excelentes notas, e por algum motivo as pessoas acham que não sou merecedora, então.. durante a premiação dos melhores alunos da escola hoje, foi chamado o meu nome. Marta Mercia Mapande, melhor aluna do 12o ano… Wow, o meu coração encheu-se de alegria, esperava ouvir aplausos e levantei toda sorrisos, era a primeira vez que me premiavam pelo que fosse.. mas, silêncio. Os únicos aplausos que conseguia ouvir, eram os da minha mãe, e da dona Marta – a funcionária da minha escola que por ser minha chará (será?) tinha um carinho inexplicável por mim. Alguns segundos depois, ouviam-se vaias.. “booo” ; “aberração”; “morre” e assisti o sorriso da minha mãe desfalecer, ainda que ela tentasse a todo custo mantê-lo ali. Recebi o prémio e pedi a minha mãe que me tirasse daquele lugar.

Eu gostaria que alguém me explicasse a razão pela qual essas pessoas são tão más comigo, a razão pela qual elas têm tanta dificuldade em aceitar a minha condição.. não devia ser eu? Não devia eu estar preocupada com isso, sendo que ninguém mais enfrenta as limitações SENÃO EU?! E por que razão o Deus a quem a minha mãe tanto reza, não me cura? Ou por outra, por quê não cura as pessoas do preconceito que têm? Eu podia ficar o dia todo a fazer perguntas para as quais nunca terei respostas, mas já me dói a cabeça e a brisa da varanda é convidativa. Se ao menos alguém estivesse aqui para assegurar que vai ficar tudo bem.. ou se alguém prestasse atenção o suficiente para perceber que a depressão está a tomar conta da minha respiração.. ao menos se alguém.. desculpa mãe (…)

“Marta, como outros milhares de jovens, suicidou-se após escrever esta nota no seu diário. Se ao menos eu soubesse o mal que lhe estava a causar, se ao menos eu pudesse voltar atrás.” Disse Rui, seu irmão, no 5o aniversário de morte da Marta.

Com dor.. mas também amor, Pee.

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